quarta-feira, 16 de abril de 2014

Quem lava o corpo deve LAVAR A ALMA


                   QUARTA FEIRA DA SEMANA SANTA


É dia de arrumação geral! Vai ter festa na Igreja. Pintam-se as paredes, limpam-se os bancos, afinam-se os instrumentos, equaliza-se o som, espalham-se as mais lindas flores por todos os recantos. Os arautos batem tambores anunciando a festa pelas ruas e becos; os sinos repicam num comovente convite a todos sem distinção; os foguetes pipocam nas alturas despertando alegria aos forasteiros: venham, venham, temos festa, temos festa!

Festa é coisa muito boa! Vestem-se roupas novas sobre o corpo limpo e perfumado; preparam-se pratos suculentos, as sobremesas deliciosas e as bebidas inebriantes; vai-se ao encontro dos amigos, esquecem-se as inimizades, tudo é alegria. Festa é festa. E ninguém vai à festa para comer ou beber de graça! Vai à festa pela alegria da festa.

Conclusão: aproveitar a festa para vestir roupa nova, comer melhor, limpar a igreja, arrumar a casa é muito bom. Seria muito bom também dar uma geral na alma para animar mais a celebração.

A festa passa, a poeira volta, as flores murcham, o som desafina, os tambores emudecem, os sinos calam-se, os foguetes emudecem... mas a festa continua. Continua porque quem faz a festa não é a tinta das paredes, as flores, os sinos, os foguetes, nem os tambores; nem as comidas ou as bebidas; nem a doçaria. Quem mesmo faz a festa são os amigos que nos recebem e por nós são recebidos. Estes permanecem na saúde e na doença, na festa e na dor, na vida e na morte. Amigo é amigo.

Para os amigos estão as portas da igreja sempre abertas, quer os bancos estejam limpos, quer estejam empoeirados, quer as paredes estejam branquinhas, quer estejam amareladas; para os amigos também as portas da nossa casa não se fecham, quando está tudo arrumado e quando nem cadeiras há para sentar. É assim que queremos ser recebidos na igreja e na casa dos amigos, sempre, quando vestimos roupa de festa e quando estamos desarrumados. Assim Deus nos recebe: “vós sois meus amigos”. Quem bate à porta de Deus sempre encontra a porta aberta, mesa farta, para os que vestem roupa de festa e para os que tentam se libertar das roupas surradas pela violência urbana ou descaso humano. “Na minha casa, encontrareis repouso” está escrito na porta da casa de Deus.  

Cristo sabia que a casa de Nicodemos estava desarrumada e pediu para hospedar-se lá,  assim mesmo. Só depois de receber Cristo em sua casa é que Nicodemos se tocou da necessidade da limpeza: vou distribuir pelos pobres metade dos meus bens; Cristo sabia que Madalena era pecadora e ficou feliz porque ela teve coragem de se aproximar, de lavar-lhe os pés e enxugá-los com os próprios cabelos; a mulher adúltera não veio ao encontro de Cristo, trouxeram-na, e ele a defendeu: ninguém te atirou pedra? Eu também não, vai em paz. Apesar de Pedro o ter negado três vezes, Cristo não deixou de ser amigo dele; mesmo Judas Escariotes o vendendo por míseras trinta moedas de prata, Cristo não o expulsou de casa, nem deixou de ser amigo dele. O filho pródigo voltou, as portas estavam abertas, o pai o recebeu com um abraço e mandou fazer uma festa para comemorar a volta do filho perdido, não esperou que ele primeiro lhe pedisse perdão. As prostitutas não foram elogiadas por Cristo, mas no reino do céu elas terão precedência a muitos escribas e fariseus modernos, sepulcros caiados, que somente aos olhos dos homens tão bem sabem camuflar o seu egoísmo: comem o que é dos órfãos e das viúvas, roubam nas medidas, tocam trombetas quando dão esmola... e só fazem banquetes para quem lhes pode dar muito mais.  

Conclusão, podemos vestir roupa nova comer bem, limpar a igreja, arrumar a casa em qualquer dia do ano, mesmo não sendo festa. Logo, não precisamos esperar pela Páscoa da Ressurreição para dar uma arrumada e uma limpeza na alma. 

É mandamento da Igreja confessar-se o cristão pelo menos uma vez por ano, de preferência na Páscoa da Ressurreição... e quem não se confessar, ou não for absolvido, não pode comungar, determina o Catecismo. Esta lei foi ampliada e proclamada do alto dos públicos nas missas dominicais: “Quem não estiver devidamente preparado por uma boa confissão auricular feita nos últimos trinta dias, não se aproxime da mesa da comunhão”. Enchi de ouvir isso. Será que Cristo, que foi atrás da ovelha perdida, deixando as outras todas no redil, e curou suas feridas, e a colocou às costas, e também por ela deu a vida, se ouvisse isso, não pegaria um azorrague para correr com todos os hipócritas da igreja e mandaria entrar as prostitutas, coxos e toda a sorte de aleijados? Sem dúvida. Quem merece a comunhão? - Somente aqueles a quem Jesus se quer dar. E ele se dá, de preferência, àqueles que mais precisam. Ninguém o compra, ninguém o merece... Ele é o grande presente que o Pai nos deu. A única exigência é a fé: "Crês em mim?"

A igreja arrumada e limpa, a casa arrumada e limpa, a alma arrumada e limpa... dão gosto em dia de festa e fora dela. O corpo limpo e perfumado é outra coisa; a alma purificada pela confissão em dia de festa ou fora dela é o diferencial que se manifesta numa alegria irradiante e numa visão clara das maravilhas do Criador. Vejam-se os lírios do campo...nem Salomão com toda a sua riqueza, se vestiu igual a um deles; veja-se a chuva que cai do céu no campo do justo e do injusto. Quem não conhece o efeito da chuva, ou o conhece e não o procura, logicamente não colherá os frutos. Deus não quer converter o injusto pela fome, nem pelo sofrimento, mas quer apenas que ele reconheça que o sol e chuva são presentes de Deus e... "que se converta e viva".

É fundamental que quem se confessa conheça as palavras de Cristo dirigidas aos seus apóstolos: ”àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados”. Ponto final. Estão perdoados. Nunca mais fale neles. Não duvide do que Cristo falou. Seria muita falta de fé. "Tendes fé em Deus, tende fé também em mim?” pedido do Mestre. Tende fé em mim. Pois, bem, se Cristo fala hoje pela boca dos seus ministros "teus pecados te foram perdoados”, não se fale mais neles. Reserve a memória para os pecados futuros: esquecimento de Deus - amor com amor se paga; prejuízos causados aos outros ou o mal causado a si mesmo - amar os outros como queremos ser amados.

- Abilio Vasconcelos

 

- Abilio Vasconcelos

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